Este é um texto original do O Globo na internet. Não tenho absolutamente nada contra este órgão em especial, apenas selecionei uma matéria que serve muito bem para propósitos de argumentação.
QUITO - O presidente Rafael Correa venceu o último obstáculo em sua corrida para convocar um referendo constitucional, apenas dois anos e meio depois de ter aprovado a reforma da Carta Magna.
Após a Suprema Corte ter autorizado a convocação do referendo - previsto para o final de abril - agora foi a vez de o Tribunal Constitucional de Quito aprovar as dez perguntas da consulta que, entre outras questões, pode resultar na ampliação dos poderes de Correa sobre o Judiciário do país.
Considerada “uma vitória da democracia e do povo equatoriano” por Correa, a consulta popular é vista como uma violação da Constituição pela oposição, que critica o afã do presidente de tentar controlar a Justiça, além da tentativa de restringir a liberdade de imprensa no país.
As dez perguntas abordam desde a regulamentação de briga de galo até a proibição a diretores e sócios de bancos e meios de comunicação de ter negócios em outros setores- considerado um dos pontos mais controversos do referendo. O governo se justifica alegando que há conflito de interesses nesses casos, mas empresários do setor acreditam que essa seria uma medida autoritária.
Neste curto artigo, usarei o texto acima para provar a inexistência da chamada “imparcialidade” da imprensa. Comecemos.
Primeiro de tudo, é importante ter em mente que as evidências da parcialidade não são claras e abertas, facilmente reconhecíveis. São pequenos detalhes, como escolhas sintáticas, de advérbios e adjetivos e usos de recursos lingüísticos que demonstram a leve “alteração por ponto de vista”(APV, em termo cunhado por mim mesmo) do texto. Não digo que seja uma notícia manipulada, com a intenção de ludibriar o leitor; apenas mostro que convicções e pontos de visto do redator influenciam a maneira como os fatos são apresentados. Mas vamos aos trechos:
a) “pode resultar na ampliação dos poderes de Correa sobre o Judiciário do país”
Esta é a APV mais clara de toda a notícia. Com o curto trecho, o redator se posiciona frente ao referendo, classificando a proposta como um controle do governo sobre o Judiciário. O texto original da proposta dá sim margem para essa interpretação, mas o fato de o redator ter feito-a e colocado-a na notícia caracteriza uma APV.
b) “Considerada “uma vitória da democracia e do povo equatoriano” por Correa, a consulta popular é vista como uma violação da Constituição pela oposição, que critica o afã do presidente de tentar controlar a Justiça, além da tentativa de restringir a liberdade de imprensa no país.”
Esta APV é mais sutil. Se, por um lado, a notícia apresenta os dois lados da discussão, o lado da oposição ganha destaque. Enquanto que para a posição do presidente foi escolhida uma frase genérica, pouco esclarecedora e colocada entre aspas, quase que como a ironizando, para a oposição foram colocados dois argumentos racionais e em redação direta, sem citação. Não é possível alegar falta de informação pois, além da fala genérica, Correa apresentara argumentos válidos para a sua proposta.
c)”(…) a proibição a diretores e sócios de bancos e meios de comunicação de ter negócios em outros setores- considerado um dos pontos mais controversos do referendo”
Uma APV também sutil, e que só faz sentido no conjunto do texto. Sim, a proibição é um dos pontos mais controversos do referendo; mas a reforma do Judiciário também é, e até mais. E porque só comentar a controvérsia no segundo caso? Porque, no primeiro, a controvérsia não existe para o redator. No julgamento dele, a reforma do Judiciário é o controle do governo sobre o Judiciário, inconscientemente anulando a controvérsia do assunto e manipulando a comparação de argumentos.
Enfim, estes são apenas três APVs de uma notícia curta e analisada rapidamente. Mal pode ser considerada uma análise, na verdade; chamemos de leitura criteriosa. Não acredito que provem irrefutavelmente a minha teoria da não-existência da imparcialidade, mas já é um começo. Ainda vou ser um verdadeiro pesadelo para os idealistas do jornalismo.